 |
|
| Foto: RICARDO GIRALDEZ |
 |
| PINHEIRO NETO: As
montadoras investiram US$ 26 bilhões pensando em toda
a região |
Ou vai ou racha
O presidente da Anfavea, José Carlos Pinheiro Neto, diz que o
Mercosul é irreversível e garante que o programa da renovação de
frota vinga em 2000
ÁLVARO ALMEIDA
Felizmente os automóveis produzidos no Brasil
possuem muito mais tecnologia do que no passado. Do contrário,
seria difícil para José Carlos Pinheiro Neto, presidente
da Anfavea (a associação das montadoras instaladas
no País), aguentar tantos solavancos do mercado, freadas
nas negociações do Mercosul e guinadas nos acordos
com os trabalhadores. As últimas manobras que teve de enfrentar
foram provocadas pelas campanhas presidenciais argentinas, que praticamente
travaram as tratativas para a renovação do acordo
automotivo com o Brasil. Resultado: nada pôde ser decidido
até a confirmação da vitória de De la
Rúa, o que pode provocar uma extensão emergencial
do atual acerto por mais três meses até que os diplomatas
dos dois países possam, enfim, se reunir e firmar um novo
documento com as regras de comércio para o setor até
2003. Negociar, negociar, negociar. Esta parece ser a essência
do trabalho de Pinheiro Neto, executivo de carreira da GM, que hoje
se debruça em discutir fórmulas com governo, trabalhadores,
concessionárias e fabricantes de autopeças para evitar
que a indústria automobilística seja muito afetada
pela crise econômica. Depois que o mercado brasileiro despencou
de dois milhões de carros vendidos em 1997 para 1,5 milhão
em 1998, esperava-se o pior para este ano. Alguns especialistas
falavam em apenas 800 mil unidades. Com os acordos emergenciais,
a indústria vai completar 1999 com 1,4 milhão de carros
vendidos. Tudo graças à negociação,
que é a grande regra do mundo atual, explica Pinheiro
Neto, que aposta no programa de renovação da frota
como combustível para as vendas das montadoras no ano 2000.
ISTOÉ - Por que a renovação do acordo
automotivo do Mercosul está tão difícil de
sair?
José Carlos Pinheiro Neto - O meu pai dizia que, em
casa que não tem pão, todo mundo grita e ninguém
tem razão. Ambos os mercados sofreram uma queda neste ano
e passaram a valorizar mais todas as suas possibilidades de vendas.
Diante desse cenário, o lado brasileiro adotou uma postura
extremamente flexível para concluir o acordo, já que
com a mudança de câmbio o produto brasileiro ficou
mais competitivo. É bom que se diga que o chamado regime
automotivo é uma exceção ao Mercosul,
que ainda não passa de um acordo aduaneiro. Se não
for concluída esta renegociação até
31 de dezembro, a rigor não há Mercosul para a área
automotiva. Portanto, comercializar carros na região seria
como exportar para Estados Unidos ou Itália. O imposto pago
seria cerca de 35%, e fim de papo.
ISTOÉ - Como esta falta de solução
chegou até aqui?
Pinheiro Neto - Eu tenho dito que nós precisamos estabelecer
um processo de discussão continuada de nossas divergências.
E recentemente o ministro Lampréia (Luiz Felipe Lampréia,
das Relações Exteriores) me informou do interesse
claro do Brasil de participar de um sistema chamado solução
de controvérsias, que é uma comissão
permanente para se discutir essas divergências. É uma
pretensão divina dizer que quando este acordo for assinado
estará tudo resolvido. Mas não se pode negociar o
Mercosul e ficar assim aos soluços, com avanços e
retrocessos. Portanto, se houver problema nos carros, nos calçados
ou nos tecidos, continua-se o comércio e leva-se o problema
para esta área de solução de controvérsias.
Na verdade, já há a OMC (Organização
Mundial de Comércio) para isso, mas é extrapolar a
questão, porque a OMC tem suas regras, prioridades e cronograma.
É melhor ter uma mini OMC para o Mercosul, que
agilizaria o processo.
ISTOÉ - Qual o futuro do mercado automobilístico
no Mercosul?
Pinheiro Neto - A área automotiva do Mercosul é
irreversível. As empresas investiram US$ 26 bilhões
entre 1996 e 2000, considerando o Mercosul, não só
o Brasil ou a Argentina. Em 2001, a região terá capacidade
de produzir 3,7 milhões de carros. Nas negociações
atuais, o Brasil adotou uma postura extremamente flexível.
Aceitamos, por exemplo, estabelecer nos carros um índice
de peças fabricadas por produtores instalados na Argentina.
Recentemente nos acordos emergenciais brasileiros, que reduziram
impostos, não houve nenhuma discriminação ao
carro argentino. Tudo porque o Brasil é o grande consumidor
do Mercosul. Por isso fomos surpreendidos com esta decisão
da oposição argentina de criar um desconto para uma
nova categoria de veículos com motores de baixa contaminação,
desde que produzidos lá. Protestamos, já que não
se pode beneficiar um produto por sua origem dentro do Mercosul.
Afinal, ou você assume o Mercosul, ou pára de brincar.
ISTOÉ - O que estaria por trás desta prática
argentina de constantemente colocar pedras no caminho do avanço
do Mercosul?
Pinheiro Neto - São os chamados jogos da negociação.
Estamos em um momento onde todo mundo decidiu exportar. E o mesmo
todo mundo decidiu não importar. Apesar disso,
exportamos em 1998 US$ 4,7 bilhões e este ano, em meio a
toda esta competição, mais US$ 3,5 bilhões.
Há dois anos, a Anfavea foi conhecer a OMC para ver que bicho-papão
é esse. Para nossa surpresa, vimos que é um clube
no qual os países asso-ciados concordam em seguir certas
normas de comercialização de produtos no mundo. É
muito formal, mas tudo acaba em negociação, que no
fim das contas é a grande regra do mundo de hoje.
ISTOÉ - O que falta para o Brasil ampliar suas
exportações?
Pinheiro Neto - De imediato, nós estamos propondo
a celebração de acordos bilaterais com Chile, Venezuela,
México e África do Sul, países nos quais a
maioria das montadoras instaladas aqui também tem representação.
Feito um acordo bilateral com o Chile, por exemplo, no dia seguinte
nós temos condições de exportar e importar
de lá. Seria muito fácil. Estamos trabalhando em parceria
com o governo brasileiro para isso.
ISTOÉ - A indústria automotiva fazia muito
lobby até o início da década, hoje essa estratégia
não tem mais espaço?
Pinheiro Neto - Esse trabalho do lob-by individual, de você
apresentar as suas razões para o convencimento das pessoas
que decidem, hoje é folclore. Se aconteceu tanto no passado,
eu até já nem sei mais. Agora o que nos resta é
um trabalho de lobby, todavia, em conjunto. Estamos dando exemplo
disso desde as câmaras setoriais. Em 1999, nós fechamos
três acordos emergenciais, agora quem é que participou
destas negociações? Montadoras, fornecedores, concessionários,
duas grandes vertentes sindicais (CUT e Força Sindical) e
o governo. Imagine a dificuldade de se achar um ponto comum. Não
existe o bom para todo mundo o tempo todo. Há o bom para
alguns por algum tempo. O próprio governo não concede
nada. A primeira pergunta que eu ouso é: E o nível
de arrecadação como fica?
ISTOÉ - E os cofres públicos lucraram com
esses acordos?
Pinheiro Neto - Se você imaginar que, sem os acordos,
as previsões de vendas para este ano no Brasil eram de apenas
800 mil carros e nós vamos chegar a dezembro com um mercado
de 1,4 milhão de unidades, não tenho dúvida
de que o governo ganhou.
ISTOÉ - Como se pretende movimentar este mercado
em 2000?
Pinheiro Neto - O grande projeto é o Programa de Renovação
de Frota, que deve começar no primeiro trimestre de 2000.
Num primeiro momento, carros acima de 15 anos terão um benefício
na troca por um zero-quilômetro. O bônus, que ainda
está sendo negociado, seria de R$ 1,8 mil para modelos a
gasolina, na seguinte composição: R$ 600 saem das
montadoras e concessionários, R$ 700 do governo federal e
R$ 500 do Estado de São Paulo, ambos em descontos de impostos.
Um processo que deverá ter a adesão dos demais Estados.
As montadoras ainda vão assumir a reciclagem, pegar a sucata
e encaminhar às empresas recicladoras, que terão rígidos
parâmetros ambientais a respeitar. Prevê-se um acréscimo
de 200 mil a 300 mil unidades por ano. Há ainda algumas discussões,
mas a Anfavea está absolutamente flexível. Temos de
parar com as discussões eternas e etéreas e passar
a agir.
ISTOÉ - Os governadores de oposição
não podem emperrar a expansão do projeto?
Pinheiro Neto - Acredito que não porque estamos vendo
o benefício do consumidor e da comunidade. Estamos falando
da retirada de circulação de um carro indesejado,
de segurança, da criação de uma atividade industrial,
de manutenção e ampliação de emprego...
Esse negócio da renovação de frota é
um boi de filé mignon. É um bom negócio para
todo mundo.
ISTOÉ - O sr. não teme que os aumentos
salariais concedidos pelas montadoras possam alimentar a inflação?
Pinheiro Neto - Muito pelo contrário. Primeiro, eles
estão representando um período de dois anos. Não
houve dissídio coletivo no ano passado. Nós não
estamos em momento algum falando de qualquer indexação,
mas sim de instrumentos como participação nos resultados,
bancos de horas, jornada de trabalho, programa de demissões
voluntárias. Essas negociações são verdadeiros
tratados trabalhistas. Não acredito e não desejo que
possamos liderar qualquer movimentação inflacionária.
ISTOÉ - Mas está fora de questão
o contrato nacional de trabalho, certo?
Pinheiro Neto - Não tem sentido você cartelizar
o salário no Brasil, extrapolar para o resto do País
o custo do ABC. Não é dessa forma que se ganha competitividade.
Numa economia global, nós estaríamos exatamente na
contramão das nossas necessidades. Fazendo isso, daría-mos
todos um tiro no pé. Não é assim que se acaba
com a guerra fiscal. Primeiro, porque não acho que ela seja
tão má. Os resultados provados não são
esses. Segundo, porque esta não é a forma de eliminá-la.
Para acabar com a doença, você está matando
o doente.
ISTOÉ - Quais as vantagens da chamada guerra
fiscal?
Pinheiro Neto - Vamos ser bastante francos. Suponha uma fazenda
num Estado que tem vocação agrícola. Se não
acontecer nada naquele local, teremos lá uma fazenda. Se
este Estado incentivar o investimento lá com uma carência
para o pagamento de impostos, em dez anos, no lugar da fazenda,
haverá uma fonte de renda para o Estado. Antes disso, aquela
empresa gerou riqueza, emprego, etc. É fácil ver o
resultado. Vão até Betim, em Minas Gerais, ou vão
agora a São José dos Pinhais, no Paraná. Houve
realmente uma regionalização dos investimentos promovida
e estimulada pelo governo federal. Concessão de incentivos
não é privilégio do Brasil. Uma das regiões
que mais fazem isso é o Estado de Nova York.
ISTOÉ - As mudanças no IPI dos carros beneficiaram
as montadoras?
Pinheiro Neto - Sem dúvida. Fizemos nossa minirreforma
tributária: temos hoje basicamente duas alíquotas,
contra as 13 de antes. E caminhamos para uma única. Os impostos
representam ao todo hoje cerca de 30% do preço do veículo,
contra os 38% de antes. Mas o Brasil ainda é o País
que mais cobra tributos na compra de um automóvel.
ISTOÉ - Sobre o sindicalismo, como o sr. define
o Vicentinho de hoje?
Pinheiro Neto - Mudaram as circunstâncias e o Vicentinho
mudou. Ele é inteligente e se adaptou aos novos tempos. Também
os discursos do Paulinho, da Força Sindical, e do Luiz Marinho,
dos metalúrgicos do ABC, são completamente globalizados.
Apesar dos conflitos que possam haver entre nós, as conversas
agregam, acrescentam algo. Eles sabem o que está acontecendo
lá fora. Claro que ainda se encontram áreas extremamente
radicais no sindicalismo, mas acho que elas serão naturalmente
esvaziadas. Os sindicalistas mudaram, mas os empregadores também.
Caso contrário, seríamos atropelados pelas circunstâncias.
A relação pessoal também é muito boa.
Com muitos deles converso todas as semanas e o exemplo emblemático
disso é que o Paulinho e o Marinho foram ao casamento da
minha filha, em outubro.
ISTOÉ - Fusões e aquisições
geralmente significam corte de pes-soal em todo o mundo. Quais serão
os efeitos desse fenômeno?
Pinheiro Neto - Olha, eu sei que as montadoras não
são campeãs em nível de emprego, mas a verdade
é que oferecem os melhores empregos da indústria.
As fusões nascem a partir da necessidade de complementação
de interesses. Para se conquistar mais mercado num país ou
adquirir um novo produto. E tudo isso visa a reduzir custos para
se tornar mais competitivo. Não se pensa mais em fábricas
de 12 mil ou 15 mil empregados. Hoje, uma megafábrica tem
quatro mil trabalhadores.
ISTOÉ - A indústria hoje não produz
cada vez mais carros para um mercado que não tem tanta demanda?
Pinheiro Neto - Nos Estados Unidos, a relação
atual é de um carro para cada habitante. No Brasil, a relação
é de nove pessoas para cada automóvel e, na Argentina,
de cinco habitantes por carro. Portanto, só para se igualar
aos argentinos, o País deveria dobrar sua atual frota de
20 milhões de veículos. O nosso mercado é de
jovens sedentos por carros. É claro que os grandes centros
urbanos têm graves problemas de congestionamentos, mas isso
não ocorre nas cidades a apenas uma hora deles. De maneira
que a população brasileira terá de se espalhar.
As montadoras, sem dúvida, são responsáveis
pelas soluções para evitar os grandes congestionamentos.
|