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Se você se preocupa com a possibilidade de ser vítima de um
criminoso atuando pela Internet, pode ficar tranquilo: a probabilidade de que isso
aconteça é muitíssimo menor do que a de sofrer algum tipo de golpe ou assalto
convencional. Por outro lado, se você acha que isso não pode acontecer com você, está
muito enganado: até mesmo quem não tem nenhum contato direto com computadores pode ser
lesado pelos criminosos que se valem de recursos digitais.
O crime digital existe desde
que os computadores deixaram de ser curiosidades científicas
e passaram a ser usados pelos bancos, comércio e administração
pública, na década de 60. Hoje, os computadores estão em toda
parte e, mais do que isso, estão interligados através de redes
que vão de poucas a milhões de unidades, que tanto podem se
concentrar num pequeno escritório como estar a milhares de
quilômetros uma das outras. Nessa comunidade de centenas de
milhões de pessoas, como em qualquer agrupamento humano, há
indivíduos e grupos dispostos a ações pouco escrupulosas.
A vastidão da Internet criou um campo igualmente amplo
para a ação desses malfeitores, que praticam desde o vandalismo gratuito, como a
distribuição de vírus digitais, até verdadeiros assaltos digitais a indivíduos e
instituições. A gama de crimes inclui a lavagem de dinheiro, divulgação de pornografia
infantil, difamação de personalidades através de sites ou e-mails, invasão de sites
com os mais variados fins até a criação de empresas falsas com o fim de lesar pessoas
descuidadas.
Paradoxalmente, é possível afirmar que movimentar contas
bancárias pela Internet ou fazer compras na rede utilizando o cartão de crédito é mais
seguro do que efetuar transações direto no caixa. Preocupados com sua própria
segurança e com a preservação de suas imagens, bancos e administradoras de cartões
gastam milhões de dólares para proteger seus sistemas e clientes de possíveis ataques
digitais.
Pio
Figueiroa
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Descuidos
Mas a grande ameaça ao cidadão comum não vem, como ocorre
nos filmes, de espertíssimos hackers capazes de entrar em
sistemas super-protegidos, como os do Pentágono ou de grandes
bancos. Segundo o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva (foto),
do Setor de Crimes pela Internet da polícia de São Paulo,
a maioria dos golpes aplicados pela rede são bastante primários,
consistindo no uso de senhas e dados obtidos principalmente
pelo descuido dos usuários para efetuar retiradas ou transferências
de dinheiro.
"Para o criminoso, a Internet tem a vantagem de ser
uma forma bastante segura de agir", conta o delegado. "Segundo um estudo do FBI,
que pode, de certa forma, ser aplicado à realidade brasileira, num assalto a banco
tradicional são roubados em média US$ 15 mil e os assaltantes têm 75% de chance de
serem presos. Num assalto digital bem-sucedido, o faturamento médio é de US$
1 milhão e o risco de prisão é de apenas 5%."
Mauro Marcelo diz não ter conhecimento de nenhum golpe de
grandes proporções no Brasil. Isso não quer dizer que ele não tenha ocorrido: ainda
segundo o FBI, apenas 15% das invasões a sistemas são comunicadas. O motivo é que,
preocupadas com a repercussão negativa, as empresas preferem absorver o prejuízo em
silêncio e preservar a imagem junto ao público.
"Para as empresas o problema consiste em proteger o
que é preciso compartilhar", explica Leonardo Scudere, presidente da filial
brasileira da Internet Security Systems (ISS), empresa líder mundial na área de
segurança na Internet. "O usuário precisa ter fácil acesso ao sistema que utiliza,
sem que este fique vulnerável a pessoas não autorizadas." Como numa agência
bancária, é preciso criar um sistema de segurança que desanime os criminosos ao mesmo
tempo que os clientes não se sintam impedidos de entrar.
Ameaça interna "Nenhum
sistema é completamente seguro e a Internet permite a exploração das falhas
existentes", continua Scudere. Grande parte delas é interna: a maioria dos ataques a
sistemas é feita por usuários autorizados. Segundo a Módulo Security Systems, empresa
brasileira especializada em segurança de sistemas, a principal ameaça, depois dos
vírus, é o funcionário insatisfeito, que se vinga da empresa ou de um superior.
A Módulo realiza há três anos uma pesquisa nacional
sobre segurança da informação, envolvendo grandes empresas públicas e privadas.
Segundo ela, 30% das companhias pesquisadas já sofreram algum tipo de invasão virtual.
Em sua maioria, elas causaram prejuízos pequenos, abaixo de R$ 50 mil, mas em 13% dos
casos, o golpe custou mais de R$ 1 milhão.
Os prejuízos com invasões digitais podem ser difíceis de
quantificar. É o caso do furto de informações por empresas concorrentes, que pode
passar despercebido. Nos EUA, em 1998, o FBI registrou 23 casos desse tipo, com perdas
calculadas em cerca de US$ 42,5 milhões. Mas é preciso levar em conta que menos de um
terço das empresas consegue avaliar monetariamente as perdas sofridas.
"Um ataque em que um hacker furte US$ 1 milhão pode
custar até 100 vezes isso a uma empresa", diz Scudere. O prejuízo se multiplica com
a soma dos custos para reparar as falhas do sistema, indenizar clientes, investigar a
autoria do ataque e pelo tempo que o sistema pode ficar fora de ação. "Para um
banco ou um cartão de crédito, ficar fora do ar causa prejuízos enormes, tanto diretos
quanto contra a imagem da instituição", lembra ele.
Para o delegado Mauro Marcelo, a preocupação com a imagem
é a principal causa do baixo número de queixas registradas na polícia contra os
golpistas da rede. "A queixa mais importante que recebemos de uma empresa no último
mês referia-se ao uso inautorizado de fotos da revista Playboy em 23 sites",
diz o policial. "É claro que a gente sabe que ocorreram coisas muito mais sérias do
que violação de direitos autorais, mas que não são comunicadas oficialmente."
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Defenda-se
Algumas precauções
que podem proteger você do crime virtual:
Trocar
senhas com frequência, se possível semanalmente.
Nunca utilizar
como senhas dados pessoais, como datas de aniversário,
endereços, nomes de parentes ou números de documentos.
Há programas desenvolvidos pelos hackers e disponíveis
na Internet que realizam combinações entre esses dados
em busca de possíveis senhas.
No trabalho,
não "empreste" sua senha para colegas, nem
deixe seu computador conectado ao sistema quando estiver
longe dele. Não deixe arquivos confidenciais abertos
ou no desktop.
Não guarde
arquivos confidenciais ou dados pessoais nem registre
senhas em laptops. Eles podem ser furtados com mais
facilidade que os computadores normais e, com eles,
as informações que você armazenou.
Se surgir
alguma irregularidade em seu extrato bancário ou de
cartão de crédito, comunique imediatamente. O tempo
é crucial para deter as fraudes.
Ao comprar
via Internet, prefira empresas com nome consagrado e
pague com cartão ou por depósito bancário. Evite enviar
cheques ou dinheiro.
Desconfie
de sites com ofertas mirabolantes.
Não dê informações
sobre seus bens e hábitos de consumo já houve
assaltos programados com base em falsas pesquisas de
mercado.
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Geralmente, as queixas à polícia
são feitas por vítimas, como as que levaram a polícia de Santa
Catarina a deter o golpista Rodines Miranda Peres, há cerca
de três meses. Ele lesou mais de 100 pessoas, desviando de
suas contas mais de R$ 1,5 milhão. Na maioria dos casos, as
vítimas de golpes digitais procuram em primeiro lugar os bancos
ou administradoras de cartões de crédito, que preferem indenizá-las
e arcar com o prejuízo a divulgar possíveis falhas de segurança.
Mais frequentes são queixas sobre invasão e alteração
de sites, como ocorreu em páginas do governo federal, partidos políticos ou de artistas.
Também há reclamações contra páginas que fomentam o ódio racial ou social, sob a
proteção do suposto anonimato que a Internet proporciona, principalmente quando elas
são hospedadas no Exterior. Recentemente, sites de leilões passaram a ser alvos
frequentes de queixas de consumidores lesados.
A ampliação do comércio eletrônico
preocupa o delegado paulista, segundo o qual o número de golpes
virtuais deve aumentar muito. Ele explica que a gravidade
das ações ilegais na Internet aumenta com a idade dos envolvidos:
adolescentes, entre 12 e 17 anos, em geral são movidos pela
curiosidade e pelo desafio e podem causar algum prejuízo,
da mesma forma que quebrar vidraças ou pichar muros. Já entre
os 17 e 22 anos, eles costumam praticar pequenas contravenções,
"como pedir pizza pela Internet". Mas os que persistem,
acima dessa faixa, usam os conhecimentos que adquiriram para
a prática de crimes mais sérios. Os casos resolvidos mostram que
o criminoso digital brasileiro é jovem, de classe média e
tem, no mínimo, curso colegial. "Para trafegar na Internet
é preciso saber inglês", diz o policial. "E é preciso
possuir ou ter acesso a um computador, o que ainda se limita
a uma camada privilegiada."
Pistas digitais
Deter e prevenir a ação desses criminosos é a grande preocupação
das empresas especializadas em segurança na Internet, como
a Módulo e a ISS. Esta última mantém uma equipe de 50 especialistas,
batizada de X-Force, que monitora os sites mantidos por hackers.
"Há cerca de 500 sites desse tipo, em que a comunidade
hacker troca informações sobre as falhas dos sistemas de empresas
e governos, além de narrar ataques bem-sucedidos", conta
Scudere. As informações da X-Force são passadas aos clientes
da empresa e enviadas aos fabricantes de softwares, para que
possam desenvolver defesas para seus produtos.
Não é só o volume de crimes virtuais
que preocupa. "É possível que novos tipos de crimes possam
ocorrer", previne Mauro Marcelo. "Ainda não se ouviu
falar em homicídios mas, se alguém invadir o sistema de um
hospital, pode alterar a medicação de um paciente." Apesar
dessa perspectiva, e da polícia ainda não ter quadros especializados,
o policial é otimista. Para ele, mesmo quando trabalhosos,
os casos de crimes virtuais são de fácil solução. "Qualquer
ação na Internet exige um provedor", explica. Para chegar
aos autores, a polícia dispõe de várias ferramentas e táticas,
como programas que traçam a origem de mensagens ou quem hospeda
os sites. "Não existem provedores piratas, todos são
registrados. É por isso que os criminosos virtuais, por mais
inteligentes e bem preparados que sejam, sempre deixam vestígios
e, mais cedo ou mais tarde, são apanhados."
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