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Juca Rodrigues

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Esqueça Bill
Gates. O nome do homem é Michael Dell. Texano, 34 anos, cara
de garotão, 1,82m de altura e US$ 20 bilhões em ações. É o
quinto homem mais rico do mundo, dono de um império chamado
Dell Computers. Começou a construi-lo em 1984 quando tinha
19 anos e estudava na universidade de sua cidade natal, Austin.
Sua idéia era vender PCs direto aos clientes, passando por
cima dos canais de distribuição tradicionais: as lojas. Para
dar o pontapé inicial da empresa, precisava conseguir máquinas
a baixo preço. Entrou numa loja de informática e comprou a
prazo todo o estoque de PCs encalhados. Aí, pegou as máquinas,
calibrou-as com discos rígidos maiores e programas mais recentes,
e começou a vendê-las por telefone por preços em média
20% inferiores aos da concorrência. O sucesso foi tanto que,
passados 12 meses, Michael Dell começou a ser assediado para
vender sua empresa. Poderia ter aceito a melhor oferta e deixado
de trabalhar antes de completar a maioridade, como contou
nessa entrevista exclusiva a ISTOÉ, realizada por ocasião
da inauguração da primeira fábrica da empresa no Brasil, em
novembro. Mas Michael Dell não seria Michael Dell se tivesse
aceito vender a empresa. Foram anos de uma obsessiva busca
pela redução de custos, que resultou numa empresa feita sob
medida para a Internet anos antes de ela existir. Quando,
em 1995, a Web explodiu, a Dell tinha a faca e o queijo na
mão. Começou a vender online. Em 1997, faturou US$ 1 milhão
por dia na rede. Em 1998, US$ 5 milhões. Em setembro de 1999,
tornou-se a maior fabricante de PCs do mundo. Hoje são US$
30 milhões ao dia. Por tabela, ficou bilionário. É o único
homem que, proporcionalmente, ganhou mais dinheiro que Bill
Gates em menos tempo.
ISTOÉ A Dell inaugurou
sua fábrica no Brasil um mês após tornar-se a maior das fabricantes de PCs. Quanto
tempo levará para ser a número 1 no Brasil?
Michael Dell Não sei.
Nos EUA, levamos 10 anos para ser a número 1. Na Inglaterra, foram 12. Na Suécia, 10.
Espero que aqui leve menos tempo. Estamos bem posicionados. As multinacionais instaladas
no Brasil, que já eram nossas clientes, nos pediam há muito tempo para virmos para cá.
ISTOÉ IBM e Compaq têm
prejuízo, assim como a Amazon.com nas vendas online. Mas a Dell lucra muito vendendo PCs
na Web. Qual é o segredo?
Dell Não fazer o que aquelas
empresas fazem (risos). Não há segredo. Nossa estrutura de custos é menos da
metade das da IBM e da Compaq. Para eles venderem ao mesmo preço que nós, precisam
perder um considerável montante de dinheiro em cada PC. A alternativa que possuem é
tentar cortar dramaticamente seus custos, cortando dezenas de milhares de empregos. É uma
transição muito difícil de ser feita. É óbvio que os seus consumidores decidiram que
a melhor forma de comprar PCs é direto do fabricante. Vão continuar comprando da Dell e
não da Compaq ou da IBM. Eles são prisioneiros da sua história. E têm um duro caminho
pela frente. As regras de competição no negócio de PCs quem define é a Dell.
ISTOÉ Tem certeza de que
é possível transferir o mesmo modelo de venda direta dos EUA para o Brasil?
Dell Implantamos nosso
modelo em 40 países. O que descobrimos na Europa, na Ásia, no Japão, na Austrália, no
México, na China e em Cingapura é que não existe país onde o modelo de venda direta
não funcione.
ISTOÉ O sr. praticamente
inventou o comércio eletrônico anos antes da Internet. Como foi isso?
Dell A idéia de vender PCs
direto aos clientes me veio à cabeça em 1984, quando percebi a ineficiência dos canais
de revenda tradicionais. Por inúmeras razões, o modelo de venda direta era a resposta.
Para efetivar essa venda, sempre olhei com atenção os meios de comunicação eletrônica
à nossa disposição. Então, quando a Internet surgiu, foi como um presente para nós,
porque criou um caminho para qualquer companhia se comunicar com qualquer outra. É claro
que a Dell continuaria a se desenvolver e ser bem-sucedida sem a Internet, mas ela nos
ajudou a crescer mais rápido.
ISTOÉ A Dell fatura US$
30 milhões por dia na Web. Todas as indústrias começam a vender via Internet. Essa
tendência não acabará com o comércio tradicional, desempregando milhões?
Dell Não acho que vamos ver
todos os negócios migrando do comércio tradicional para o 100% e-commerce. Nosso
produto são computadores, ideais para vender online. Mas os consumidores não vão
comprar na rede equipamentos como a placa-mãe do computador. Pense na indústria
automobilística: você pode comprar carros na Web, mas quem irá entrar num site chamado
Motores.com para comprar o motor de um carro? Isso não quer dizer que o comércio
tradicional não precisa mudar para sobreviver, adicionando serviços que não existem
online. Quem entra numa livraria hoje encontra locais para tomar café e poltronas,
artifícios para tornar mais agradável a experiência do consumidor. Agora fazer o mesmo
com uma farmácia é um desafio. As pessoas não entram nas farmácias para encontrar
amigos ou conhecer pessoas. Muitos não gostam de entrar em farmácias. Apenas vão quando
precisam. Um negócio assim está em desvantagem.
ISTOÉ A estrela da
Telecom 99, a mais importante feira de telecomunicações, realizada em outubro em
Genebra, foi o celular inteligente. Ele vai substituir o PC?
Dell
Acredito que haverá um monte de equipamentos inteligentes,
mas não creio nessa história de era Pós-PC. Vi pessoalmente
muitos desses dispositivos, como celulares de terceira geração
e computadores de mão, e não acho que eles substituem o PC,
mas que o complementam. Em primeiro lugar, o tamanho do monitor
de um celular e a capacidade de armazenamento de dados são
muito limitados. Quem quiser acessar informações da forma
mais rica possível, não vai usar uma agenda e sim um PC. De
fato, basta olhar para o equipamento mais popular dessa categoria,
o computador de bolso Palm, da 3Com. O botão mais importante
do Palm é o que permite a sincronização de dados com o PC.
Se isso não fosse possível, ele não seria tão útil. O celular
de terceira geração terá tecnologias de transmissão de dados
sem fio, como a Bluetooth, para
sincronizar listas de e-mail e de telefones com o PC. Mas
não dará para assistir a uma videoconferência em seu monitor.
ISTOÉ Como vê o futuro
da informática?
Dell As pessoas costumam falar
sobre convergência. Não acredito em convergência e sim em dispersão, que quer dizer a
proliferação da tecnologia da informação em todo tipo de dispositivos. A computação
estará nos objetos de uso pessoal, no carro, no telefone, na televisão, no PC, em todos
os lugares. Muitos desses equipamentos não parecerão computadores. A forma deles irá
mudar.
ISTOÉ Como é ter US$ 20
bilhões? Nunca pensou seriamente em se aposentar?
Dell Não, eu não penso nisso.
Em última instância, a maioria desse dinheiro será doada como caridade para ajudar
outras pessoas. Poderia ter me aposentado 14 anos atrás, quando a Dell tinha apenas um
ano e comecei a receber ofertas para vendê-la.
ISTOÉ O sr. se tornou uma
das figuras mais míticas numa indústria repleta de heróis? O sr. se considera o
próximo Bill Gates?
Dell Mítico??? Essa é nova! (risos)
A indústria está criando grandes oportunidades para mim e para muitas outras pessoas,
mas não penso realmente muito nisso.
ISTOÉ Bill Gates e
Michael Dell largaram a universidade aos 19 anos. A educação tradicional é essencial na
era da informação?
Dell Não quero desencorajar
ninguém a obter uma boa formação. No meu caso, o que aconteceu foi que vi uma
oportunidade irresistível e tive de persegui-la. Mas o aprendizado é importante e não
se restringe à escola ou à universidade. Isso é uma coisa muito perigosa de se
acreditar. Eu, por exemplo, continuo aprendendo todos os dias como tocar o meu negócio.
ISTOÉ Analistas da
indústria dizem que Michael Dell só teve uma grande idéia: vender PCs de forma direta.
O sr. se considera um homem de uma idéia só?
Dell Não (risos). É muito fácil olhar
para o nosso negócio e dizer que o sucesso da Dell é devido apenas a uma estratégia bem
implementada. Também é simples dizer que tudo o que fizemos foi trabalho de um só
homem. Não foi. Foi o trabalho de uma equipe que abraçou uma idéia, a da venda direta. |