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Ainda
embrulhadas em fraldas, sem saber ler nem escrever, muitas crianças
hoje dominam o mouse com a mesma destreza com que brincam de chocalho.
O contato com a tecnologia começa cada vez mais cedo para constrangimento
geral dos pais, muitas vezes obrigados a tomar lições com seus filhos
para não fazer feio no escritório. Nas escolas particulares, onde
os PCs são mais comuns do que no ensino público brasileiro, as aulas
de computação atendem a uma galera no mínimo precoce. Algumas delas
vêm do maternal, com três ou quatro anos de idade. Cedo demais para
mexer no computador? Depende. Há especialistas que garantem: quanto
mais cedo uma criança dominar a tecnologia que lhe vai servir no futuro,
melhor. Outros são mais reticentes e acham fundamental esperar até
que a garotada viva outras experiências antes de dedicar-se à informática.
Na lista de atividades essenciais para uma infância sadia estão as
brincadeiras de roda, o contato com amigos e, claro, as raladas no
joelho.
Fotos: Alex Soletto
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Mexer no computador
não é uma atividade danosa em si. Longe disso. Bem utilizado, ele
pode ser um tremendo aliado no ensino, ajudando nas lições de casa
e tornando mais suportáveis as tardes chuvosas dentro de casa. Há
programas específicos para que a criançada desenvolva a coordenação
motora fina, a percepção de cores, as formas e ainda estimule o
raciocínio lógico. Assim como a televisão, porém, o computador exige
limites rigorosos. Não deve ser usado por longos períodos, sob o
risco de amplificar a ansiedade infantil. É preciso haver um equilíbrio
entre as atividades do dia-a-dia e os momentos de brincadeira online.
Mas, afinal, usar computador
na educação pode tornar uma criança mais inteligente? Para o educador
Seymour Papert, autor de dois livros sobre a influência da informática
no desenvolvimento infantil, "tudo depende do uso que se faz
do computador".
Criatividade
Uma das mais ricas fontes de informação do mundo,
a Internet pode ajudar em qualquer lição de casa. Além de auxiliar
na solução de problemas específicos, o computador também é útil
para desenvolver a habilidade de leitura, comunicação, pesquisa
e vocabulário. Com todo esse ferramental à disposição, as crianças
podem até tornar-se mais criativas. Essa pelo menos é a opinião
das 615 famílias americanas pesquisadas pela empresa Digital Research.
Mais de dois terços dos pais ouvidos (61%) acreditam que seus filhos
se tornaram mais criativos com o uso da tecnologia. "Quando
estão online, as crianças lêem, analisam, avaliam, comparam seus
pensamentos, contam histórias, colaboram e inovam. A Internet tornou-se
um repositário de todo o conhecimento registrado", arrisca
o autor americano Don Tapscott, que escreveu o livro Crescendo
digitalmente: o surgimento da geração da rede. Ainda assim,
quando o assunto é inteligência, não há conclusões categóricas para
indicar que crianças adeptas do computador sejam mais ou menos capazes
que as demais. "A conclusão dos vários estudos é que, se usada
corretamente nas escolas, com crianças acima de seis anos e em várias
disciplinas, a informática pode melhorar a capacidade de aprendizado,
de análise, de motivação, além de desenvolver a habilidade de comunicação",
diz Tapscott.
O grande problema é
saber quando e como usar corretamente o computador. Uma das instituições
que resolveu especializar-se na investigação de novas tecnologias
de comunicação aplicadas à educação foi a Escola do Futuro, núcleo
de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Lá buscam-se propostas
pedagógicas inovadoras utilizando recursos como a Internet e a multimídia
para maximizar as possibilidades do ensino e da aprendizagem. Entre
os pesquisadores destaca-se Renata Ramos, responsável pela área
de hipermídia educacional. Sua posição quanto ao uso do PC na educação
é categórica: "O computador é um ótimo motivador para as crianças.
Seu objetivo é a informação. Até os quatro anos, elas estão na fase
do descobrimento e o uso de qualquer tecnologia deve ser lúdico",
ensina. Os projetos da Escola do Futuro são sempre realizados diretamente
com os professores e atingem mais de 500 escolas em todo o País,
com predominância de estabelecimentos da rede pública.
Evitar
pressões Muitas vezes os pais confundem o uso correto
de computadores na vida de seus filhos e acabam pecando pelo excesso.
A necessidade de preparar os filhos para o mercado de trabalho às
vezes atropela o processo natural de amadurecimento da criança e
muitas vezes os pais introduzem a informática antes da hora. "Uma
vez o pai de um aluno veio reclamar que seu filho não conseguia
fazer o banco de dados de sua empresa. Perguntei quantos anos o
menino tinha e ele respondeu: Sete!", relembra
Myriam Tricate, diretora do colégio Magno. Com mais de três mil
alunos, o Magno investe 7% de sua receita em recursos tecnológicos
e é um dos mais ferrenhos adeptos da informática na sala de aula.
"É importante que os pais percebam a integração das atividades
escolares nas aulas de computação. Não adianta nada ensinar Português,
Ciências ou outras disciplinas se não houver uma integração real.
No mundo digital, todas as disciplinas estão inter-relacionadas",
diz Myriam.
Sob
a ótica mercadológica, centenas de empresas especializaram-se no
desenvolvimento de equipamentos, periféricos e programas específicos
para o nicho infanto-juvenil. Nem todos, porém, são indicados para
o consumo infantil. Estudos recentes indicam que os programas que
exigem raciocínio são mais indicados do que os joguinhos com exercícios
que demandam apenas cópia e repetição. Não raro, esses programas
são tão passivos quanto a televisão. Mesmo assim, a indústria de
programas educacionais cresce a passos largos. Nos últimos dois
anos, a participação dos produtos educacionais no mercado de multimídia
subiu de 15% para os atuais 50%, informa Cíntia Porfírio, gerente
da Positivo Informática, uma das maiores empresas de softwares educacionais
do País. Quem comprova essa tendência é a Electronic Entertainment
Expo, a E3, maior feira de entretenimento e multimídia que acontece
anualmente nos EUA: os jogos, que em 1995 representavam quase 80%
da produção do setor, caíram para 50% em 1999, deixando a outra
metade para os títulos didáticos.
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Dicas para seu filho tirar
proveito do computador
1-
Evite fazer do micro uma babá eletrônica para deixar seu filho
ocupado enquanto você também estiver.
2-
Controlar o conteúdo da Internet é praticamente impossível.
Por isso, separe um tempo de seu dia para brincar no micro
junto de seu filho.
3-
Fuja dos programas violentos ou aqueles em que é preciso apenas
fazer exercícios repetitivos, sem estímulo intelectual para
a criança. Dê preferência para jogos que envolvam raciocínio
e o uso da memória.
4-
Equilibre bem o dia da garotada. Crianças precisam brincar,
relacionar-se com os amigos na escola, ler, praticar esportes,
assistir à tevê e jogar videogame. Tudo com limites.
5-
Ajude a desenvolver a consciência crítica de seu filho explicando
que, assim como na televisão, nem tudo o que aparece na Internet
é verdade.
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A facilidade que as
crianças têm para manusear mouses, teclados, controles remotos,
microondas e até mesmo o relógio do videocassete pode ser expressa
nos seguintes termos: elas trabalham na base de tentativa e erro,
sem medo de apertar botões e provocar um curto- circuito.
"A gente nasce sem saber nada, com a memória limpa igual à
de um PC novo. Os adultos têm medo", diz Daniel Bezborodco,
que, aos dez anos já pensa em fazer engenharia mecatrônica. Daniel
é um típico exemplo de estudante que iniciou seu desenvolvimento
tecnológico aos quatro anos e hoje já dá "aulas" ao pai.
Todo esse conhecimento deve ser muito bem dosado, afirma Fany Barocas,
diretora do Colégio I. L. Peretz, escola particular voltada à comunidade
judaica de São Paulo. "Temos muito cuidado ao ensinar computação.
Não queremos que o aluno perca o convívio social ou deixe de fazer
as atividades normais de uma criança em função do computador",
afirma Fany. Não é raro encontrar crianças viciadas em tecnologia,
daquelas que saem do colégio brincando com o game portátil, chegam
em casa e passam a tarde jogando videogames e navegando na Web.
Atividades artísticas e esportivas, bem como brincadeiras com outros
colegas, acabam encaradas como "caretas, ultrapassadas".
O importante é o equilíbrio entre todas as atividades, lúdicas,
físicas ou mesmo aquelas reservadas a estimular as relações interpessoais.
"Gosto de ficar no PC e jogar videogame, mas nunca deixo de
fazer minhas outras atividades como natação, marcenaria e inglês.
Sei que o importante é uma mistura de tudo", analisa Daniel.
Bom senso
Apesar de existir correntes pró e contra o uso da tecnologia na
educação, a realidade é que o dia-a-dia das pessoas está cada vez
mais integrado ao computador e seu conhecimento é pré-requisito
para as principais profissões. O segredo do ensino, aliado à tecnologia,
é o bom senso. Não adianta introduzir na informática uma criança
de três anos, deixando para trás as brincadeiras de roda, os esportes
e as outras atividades fundamentais em sua formação. A tecnologia
nada mais é do que uma ferramenta para o saber, que deve ser acompanhada
de perto por pais e mestres.
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