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Quem não passou os últimos cinco anos
isolado em uma ilha deserta certamente já ouviu falar em comércio
eletrônico. A Internet está mudando a forma de fazer negócios, da
padaria ou da banca de jornais da esquina até as maiores corporações
do planeta. É uma revolução rápida e silenciosa. No passado, os
barcos a vapor (1807), locomotivas (1814) e o telégrafo (1814) encurtaram
a distância entre as pessoas e os mercados consumidores, fazendo
surgir os grandes conglomerados econômicos, preocupados com a produção
em massa e atuando internacionalmente. Hoje a informação circula
em fios de fibra óptica, à velocidade da luz. Nunca foi tão fácil
globalizar-se. Uma empresa húngara, por exemplo, virou fornecedora
de peças de notebook para a IBM sem ter mandado um único vendedor
até os EUA tudo foi feito via Internet.
Da mesma forma que
o automóvel substituiu o cavalo e os supermercados ocuparam o espaço
dos armazéns de esquina, o comércio eletrônico deve, em breve, se
tornar parte do dia-a-dia da maioria dos consumidores. Hoje, já
é possível aqui mesmo, no Brasil comprar qualquer
tipo de mercadorias e solicitar serviços igualmente variados através
do computador. A maior inovação em shopping centers não é um prédio
gigantesco: é um PC conectado à linha telefônica, que transforma
cada casa ou escritório em um ponto-de-venda. Do outro lado do balcão,
o acesso à Internet tem o dom de mudar qualquer firma instantaneamente
numa empresa global. A rede é uma imensa vitrine, visível de qualquer
lugar do mundo, que possibilita a mais pessoas conhecer produtos
de todo o tipo um mercado de mais de 200 milhões de internautas
no mundo, oito milhões deles no Brasil.
A consultoria americana
IDC calcula que 31 milhões de pessoas adquiriram algo por meio da
Internet em 1998. Em 2003, deverão existir 183 milhões de consumidores
online. Até lá, as vendas via Internet, aí incluídas as relações
entre empresas, poderão movimentar mais de um US$ 1 trilhão. O Brasil
não fica muito atrasado nessa área. Estamos, de acordo com o Ibope,
entre as dez nações que mais utilizam a rede. De dezembro de 1998
até agora, o número de internautas brasileiros aumentou 30%, atingindo
3,3 milhões de usuários regulares. Estima-se que os brasileiros
com alguma forma de acesso à rede, mesmo que só e-mail, sejam oito
milhões. Até dezembro, o Brasil responderá por 88% do comércio eletrônico
da América Latina, apesar de contar com 45% dos internautas da região.
Para se ter uma idéia da distância que separa o Brasil do resto
do continente, o segundo lugar é ocupado pelo México, com apenas
8%.
Mercado explosivo
Segundo pesquisa realizada pelo Boston Consulting
Group, as vendas online no continente devem atingir US$ 160 milhões
até a virada do ano. É bom, porém, que as empresas brasileiras despertem
logo: segundo o IDC, somente 26% das compras brasileiras online
ocorrem em sites nacionais o restante é fornecido por empresas
de outros países. Por enquanto, os EUA ainda detêm a maior parte
do comércio eletrônico mundial cerca de 74%. Outro dado é
o volume da Internet na economia dos EUA. Segundo a Universidade
do Texas, entre o primeiro trimestre de 1998 e o mesmo período de
1999, ela cresceu 68%, gerando 2,3 milhões de empregos e movimentando
fabulosos US$ 507 bilhões, 60% do PIB brasileiro.
O que, afinal, está
levando os consumidores a gastar cada vez mais seu dinheiro na rede
mundial de computadores? "Comodidade", responde Roberto
Christmann, diretor da e-Seguros (www.eseguros.com.br),
a primeira corretora virtual do País. Graças à facilidade que o
consumidor tem de orçar um seguro e contratá-lo no horário em que
quiser, mais de 1.100 apólices foram fechadas por esse site em apenas
dois meses. "Se não fosse pela Internet, precisaríamos de um
exército de corretores batendo de porta em porta", compara
Christmann. Como esse exército e os gastos com ele não são necessários,
a empresa pode oferecer descontos, um dos atrativos das empresas
virtuais.
Os custos de uma loja
virtual são muito menores do que os de um estabelecimento comercial
comum. No varejo online, não há gastos com aluguel e manutenção
de pontos comerciais e há menor necessidade de funcionários. As
indústrias que colocam seus produtos à venda na rede deixam de gastar
com distribuição e embolsam a margem de lucro dos revendedores.
Mas nas lojas eletrônicas os preços não são obrigatoriamente menores.
Um dos fatores que levam as empresas online a não vender tão barato
como poderiam é o medo de matar os seus canais tradicionais de distribuição.
"Muitos consumidores ainda não usam a Internet", lembra
a diretora de soluções de comércio eletrônico da IBM no Brasil,
Lilian Picciotti. A empresa oferece na Internet produtos com preços
iguais aos de mercado e encarrega seus fornecedores de fazer a entrega.
"Damos a chance de eles estabelecerem um relacionamento com
os clientes", diz Lilian.
Paciência
As empresas que entram para o mundo virtual não podem esperar ganhos
apenas com a redução de custos e ampliação de seu mercado. É necessário
mudar sua cultura. O cliente internauta pode comprar produtos de
todos os cantos do mundo, pesquisando preços, condições de pagamento
e prazos de entrega. "Não dá mais para fazer de conta que não
se ouviu o cliente reclamando", diz Lilian. O cliente deve
ser atendido sempre da forma mais perfeita possível. Para isso,
as empresas contam, entre outros fatores, com os programas de gerenciamento
de relações com o consumidor. Através deles, é possível saber as
preferências e os hábitos dos clientes para oferecer o produto que
melhor lhes convém, na melhor hora e pelo melhor preço. O site www.leasing.com.br,
que será inaugurado em breve, vai utilizar-se desse recurso. O interessado
em fazer financiamento para compra de bens como carros ou computadores
dirá que produto deseja, quanto quer dar de entrada e em quantas
parcelas pretende pagar. O site, após checar dados fornecidos pelo
próprio usuário e instituições de proteção ao crédito, vai indicar
onde é possível encontrar a melhor taxa de juros e outros benefícios.
"Se soubermos que o cliente procura um carro com determinadas
características e valor, podemos, devido a um acordo prévio com
concessionárias, oferecer o que ele quer com condições especiais",
diz Gustavo Succi, consultor de comércio eletrônico.
Uma vantagem de comprar
online é ir direto à "prateleira" de seus produtos preferidos.
É o que acontece com a Sony Music (www.sonymusic.com.br),
que tem à venda mais de 700 títulos nacionais e importados. Uma
das seções da loja eletrônica mostra somente CDs dos gêneros prediletos
declarados pelo consumidor ao se cadastrar como cliente. O histórico
de compras também é levado em conta: a empresa utiliza esses dados
para direcionar suas promoções. Os preços são os mesmos das lojas,
mas o frete é gratuito. "Não temos uma política agressiva de
preços, entre outros motivos, para não afetar nossos canais tradicionais
de venda", conta Erik Halfeld, coordenador de marketing estratégico
da empresa. A grande vantagem do site, para a empresa e para os
consumidores, é a venda dos produtos de catálogo, que muitas vezes
não são mais encontrados nas lojas.
A imobiliária Coelho
da Fonseca (www.coelhodafonseca.com.br)
está colhendo bons frutos de seu site, implantado há um ano e meio.
O cliente pesquisa pelo preço, região e outras características,
como número de quartos e ainda pode marcar a visita ao imóvel pela
Internet. "O consumidor tem muito mais condições de achar o
que deseja, já que não podemos anunciar todos os nossos 12 mil imóveis
em um jornal", diz Paulo Roberto Coelho da Fonseca, um dos
proprietários. O site tem um simulador de financiamento, que calcula
a renda que o interessado deve ter e, em breve, pretende oferecer
a aquisição de seguro-fiança. Os bons frutos que a Internet rende
à imobiliária não se restringem aos negócios online, que já respondem
por 15% das vendas da empresa. "Pela Internet, eu tenho um
ótimo termômetro de como anda o mercado", diz Fonseca. Graças
às mais de 900 consultas mensais, ele sabe quais são os imóveis
mais procurados, sua localização e valor. "É uma pesquisa que
custaria uma fábula."
Rede sem limites
Uma das principais vantagens da rede é que não há
limite de tamanho para vitrines virtuais. "Na Internet, a empresa
pode explorar toda a sua linha de produção, o que nem sempre é possível
em uma loja tradicional", diz Alexandre Ribenboim, vice-presidente
de planejamento da MLab, empresa carioca que produz sites e provê
soluções em e-commerce. Segundo ele, a Internet também possibilita
à empresa planejar seu marketing a preços muito baixos. Não é preciso
manter uma estrutura de telemarketing e digitadores para obter dados
sobre os consumidores, que por conta própria os repassam às empresas.
O Pão de Açúcar, dono
de uma das mais bem-sucedidas experiências de uma empresa brasileira
na Internet (www.uol.com.br/paodeacucar),
não divulga o resultado de suas vendas online, mas garante que são
um sucesso. O programa Pão de Açúcar Delivery, que também envolve
compras por telefone, fax e CD-Rom, tem mais de 120 mil clientes
cadastrados em toda a capital paulista, parte da Grande São Paulo,
litoral do Estado, parte do interior, Brasília e Rio de Janeiro.
As compras são entregues em menos de 24 horas e a taxa de entrega
varia de R$ 7,90 a R$ 9,30. Se fosse uma loja convencional, estaria
entre as 20 maiores do grupo. O Pão de Açúcar é também um bom exemplo
do uso do comércio eletrônico business-to-business, ou seja,
na relação com outras empresas a parte oculta do iceberg
do comércio eletrônico, que responde por 90% dos negócios online.
No caso do Pão de Açúcar, 32% das compras da empresa já são realizadas
eletronicamente. Quando um produto passa pelo caixa, a baixa no
estoque é dada automaticamente e, quando ele chega a um nível mínimo,
os computadores do Pão de Açúcar avisam o fornecedor. As entregas,
planejadas de acordo com a real necessidade de cada loja, reduzem
o estoque e melhoram o índice de rotatividade, garantindo produtos
dentro do prazo de validade e aumentando o espaço destinado às vendas.
Um exemplo de sucesso
na área do business-to-business é o caso da Cisco Systems,
empresa americana que atua na área de cabeamento para Internet.
Hoje 55% de suas vendas são entregues diretamente por seus fornecedores
aos clientes o pedido é feito via Internet e repassado para
a empresa que produz o componente desejado, que o envia ao interessado.
O índice de erros nos pedidos, antes enviados via fax e redigitados,
caiu de 40% para 5%. Até as compras mais simples são feitas pela
Internet se faltam clipes para os escritórios, por exemplo,
é só avisar o computador, que faz o pedido. O sistema também beneficiou
os fornecedores, que agora só produzem sob demanda e não precisam
manter estoques. A Cisco tem motivos de sobra para elogiar a Internet:
em junho de 1995, a empresa valia US$ 14 bilhões; em novembro deste
ano, seu valor de mercado ultrapassou US$ 180 bilhões, o quarto
maior do mundo (a nº 1 é a Microsoft).
Aumentar o valor de
mercado, aliás, é o maior atrativo para as empresas que se arriscam
na rede. A livraria virtual Amazon.com (www.amazon.com)
sempre deu prejuízo algumas centenas de milhões de dólares
desde 1995. Em compensação, está avaliada em mais de US$ 17 bilhões
na Bolsa de Nova York. "O valor das empresas na era da Internet
não se mede por sua lucratividade, mas por seu potencial",
diz Antonio Bonchristiano, CEO da Submarino (www.submarino.com.br),
um portal recentemente inaugurado que vende de CDs a brinquedos.
Espaço de sobra
Entrar no mundo do e-commerce não é privilégio
das grandes empresas, seja na área business-to-business,
seja nas vendas diretas. Vários provedores de acesso como ZAZ e
UOL oferecem pacotes econômicos para o desenvolvimento de lojas
eletrônicas. Na maioria dos planos, é o próprio microempresário
quem, após treinamento, administra o site. Não é necessário nem
possuir computador.
Mas há quem prefira
fazer seu site por conta própria. Essa saída caseira e barata, porém,
pode também ser perigosa: uma loja virtual mal estruturada pode
afugentar os clientes. Para começar, a empresa tem de escolher um
bom provedor para garantir que seu site estará no ar permanentemente.
Encontrar um site fora do ar por problemas técnicos é o mesmo que
encontrar a loja que queria visitar com as portas cerradas em pleno
horário comercial. E, na média, o internauta está disposto a esperar
no máximo oito segundos para que a página que quer acessar apareça
na tela.
Um problema a ser enfrentado
é o medo que muitos consumidores têm de fornecer o número de cartão
de crédito. "É uma barreira cultural. A pessoa corre muito
mais risco de ser lesada quando dá seu cartão no restaurante",
explica Francisco Serralvo, professor da PUC-SP e da Escola Superior
de Propaganda e Marketing.
Mesmo sem perceber,
dependeremos cada vez mais do comércio eletrônico: se não comprarmos
em uma loja virtual, estaremos utilizando serviços de empresas que
usam a Internet em suas relações comerciais. Nem mesmo quem se isolar
do resto do mundo estará fora do alcance do comércio eletrônico:
numa pesquisa nos EUA, 67% dos entrevistados declararam que gostariam
de poder acessar a rede se fossem para uma ilha deserta. A Web ganhou
do telefone (22%) e da televisão (8%).
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