|



Quem fez, fez. Quem não fez, a saída agora chama-se contingência.
Faltando menos de um mês para a tão esperada virada para o ano 2000,
governos e empresas de todo o mundo preparam-se para o pior, mesmo
que ele venha em pequena escala. Quem fez tudo de acordo com o manual
para evitar desastres em seus computadores vai manter gente de sobreaviso
para eventuais dificuldades. A verdade é que, segundo os maiores
especialistas em Bug do Milênio, é impossível garantir cem por cento
que nenhum computador ou equipamento eletrônico vai falhar. Daí
a necessidade dos planos de socorro. Que serão em grande escala
nas ações governamentais, envolvendo inclusive os militares. Nos
EUA, a Guarda Nacional (reserva do Exército que só atua em casos
de calamidade pública) estará de prontidão. No Brasil, o Ministério
da Defesa já tem pronto seu próprio plano de contingência, que prevê
inclusive ações de apoio às polícias estaduais. Até mesmo o presidente
Fernando Henrique Cardoso tem um plano pessoal de contingência.
Deverá passar o Reveillon no Forte de Copacabana, cercado de um
pequeno aparato de emergência.
Será provavelmente a véspera de Ano
Novo mais eletrizante da história da Humanidade. Quando o ponteiro
dos minutos se aproximar da meia-noite de 31 de dezembro em cada
um dos 24 fusos horários do planeta, a tradicional expectativa do
estouro de fogos de artifício terá dado lugar a uma certa tensão
geral. Os olhos de boa parte da população mundial estarão voltados
para alguma edição extra dos telejornais. E a pergunta corrente
será: houve algum desastre? Alguns tecnofóbicos imaginam que o mal
funcionamento dessas máquinas vai provocar um verdadeiro caos nos
sistemas de abastecimento de produtos de primeira necessidade. O
mais provável, porém, é que o estrago seja menor do que tem sido
propalado. Especialistas respeitados, como os da consultoria americana
Gartner Group, acreditam que as pessoas devem se preparar, sim,
mas como se estivessem esperando uma tormenta que durará menos de
uma semana, e não o fim do mundo. Dizem os especialistas que boa
parte dessa expectativa tormentosa poderia ter sido minimizada se
os órgãos federais dos países mais ricos tivessem "acordado"
mais cedo para o problema o que dirá dos países com organização
precária.
|
O que é?
Bug, do inglês, quer dizer inseto, mas no sentido de
praga, como os indesejáveis mosquitos, pulgas e ácaros. Na
informática, o termo é usado para apontar erros escondidos
num programa e que fazem o computador falhar. E foi empregado
pela primeira vez em setembro de 1947 por um técnico da Universidade
Harvard, nos EUA. Ele operava o computador Mark II, um dos
primeiros da história, quando percebeu um erro nos cálculos
da máquina. Mas não havia nenhum defeito aparente. O cientista
teve que desmontar o computador para achar a culpada: uma
mariposa, que estava pousada sobre os circuitos. Depois de
retirá-la, o defeito desapareceu e o termo bug entrou
para a história.
|
Por nada Esse
é um problema absolutamente peculiar. Sua causa é banal, para não
dizer ridícula. Quando o computador passou a ser uma ferramenta
comercial nos anos 50, sua memória ainda era muito cara. Para se
ter uma idéia, em 1965 um megabyte de espaço de memória magnética
(suficiente para gravar um texto de 300 páginas) custava US$ 761.
Hoje, o mesmo espaço no chamado disco rígido de qualquer PC custa
a pechincha de US$ 0,75. Então, para economizar o espaço que era
muito caro, os engenheiros da época adotaram a prática de cortar
e abreviar tudo o que fosse possível, inclusive os dois primeiros
dígitos comuns a todos os anos do século XX - 1958 era registrado
apenas como 58 para efeito de processamento. Ninguém se deu conta
que, quando houvesse a passagem de 1999 para 2000, o computador
não entenderia porque 00 tem que ser maior que 99. Como todos os
computadores e os chips embutidos neles funcionam
amparados em datas, a conclusão do raciocínio absolutamente lógico
das máquinas será a de que 00 significa 1900 e não 2000. Resultado:
ou ele trava ou remete o trabalho para o início do século XX, com
conseqüências desastrosas como, por exemplo, uma conta de cartão
de crédito computar 99 anos de juros. Bom, no final das contas aquela
economia ficou caríssima. Para reparar essa falha (do inglês, bug)
em todos os computadores do mundo estimam-se gastos estratosféricos,
que vão dos US$ 50 bilhões aos US$ 600 bilhões. Sem contar o custo
dos processos legais por perdas e danos causados por computadores
que escaparão ao conserto e que devem movimentar nos próximos anos
perto de US$ 1 trilhão em indenizações nos tribunais de todo o planeta.
É realmente muito estrago por nada.
Pânico O grande
perigo dessa falha banal é sua incerteza. Como nunca aconteceu antes
e provavelmente não se repetirá, não há como prever suas conseqüências.
Essa perspectiva, que pode tomar as piores cores dependendo de quem
a vê, está levando muita gente a tomar atitudes drásticas, particularmente
nos EUA, onde historicamente o pânico coletivo dispara facilmente.
E não são apenas iniciativas pessoais ou de grupos místicos que
temem o fim do mundo. Autoridades de quase todas as pequenas cidades
americanas estão incentivando seus habitantes a estocar alimentos
em casa seguindo, por sinal, orientação da própria Casa Branca.
Mesmo o Congresso dos EUA, no seu último relatório de investigação
sobre o bug, reitera o conselho dado a todos os cidadãos do país
pelo Gartner: "as pessoas devem se preparar para falhas localizadas,
tanto nos serviços quanto na infra-estrutura pública. O tipo e o
número de problemas irão variar geograficamente e não podem ser
realmente previstos. Assim, os indivíduos devem ter em casa o equivalente
a duas semanas de salário em dinheiro vivo e suprimentos suficientes
para cinco dias de dificuldades" leia-se estocar algum
alimento, água e combustível (para o gerador de aquecimento, imprescindível
no inverno do hemisfério norte).
E no Brasil? Talvez por ignorância
ou mesmo por uma índole coletiva mais tranqüila, não há notícia
de ninguém que esteja planejando armazenar víveres para sobreviver
aos prováveis, mas ainda muito incertos desastres que o bug pode
criar aqui. Marcos de Almeida, funcionário da Secretaria da Administração
federal encarregado de supervisionar o conserto dessa falha em todos
os computadores do governo, confirma que o trabalho atrasou muito,
mas garante que o conserto nas áreas mais sensíveis como energia
elétrica, abastecimento de água, telecomunicações e saneamento básico
"foi concluído a tempo". Toda essa gigantesca tarefa esteve
a cargo do Comitê Gestor do Programa Ano 2000, criado ano passado
por representantes da Casa Civil, do Ministério Extraordinário de
Projetos Especiais e da Secretaria de Estado de Administração e
Patrimônio. E pode ser avaliada com algum detalhe em uma página
da Internet (www.a2000.gov.br).
Mas o fato é que essa meticulosa e demorada tarefa braçal de checar
todas linhas, de todos os programas, em todos os computadores começou
muito tarde. Embora uma ou outra repartição tenha iniciado o trabalho
ainda em 1997, a maior parte só começou no segundo semestre do ano
passado. Mesmo o pedido inicial de informações enviado a todos os
órgãos federais por uma circular do então ministro-chefe da Casa
Civil, Clóvis Carvalho, precisou de uma segunda chamada para surtir
efeito. Uma das justificativas dadas pela administração brasileira
é a de que os setores sensíveis, como as teles, ficaram imobilizados
em função das privatizações. Como que para compensar isso, as novas
agências reguladoras, como a Anatel (telecomunicações) e Aneel (energia
elétrica), emitiram somente no primeiro semestre deste ano portarias
exigindo certificados de garantia dos novos controladores privados.
Energia Na
área de energia os testes começaram ano passado um deles,
feito na hidroelétrica de Xingó (nordeste), provocou um pânico geral
nos sistemas de fornecimento. "A partir daí o setor acordou",
admite Almeida. O "apagão" de fevereiro, mesmo sem ter
ainda uma causa conhecida chegou a correr um boato de que
foi conseqüência justamente de um teste de bug , acrescentou
uma cor mais negra à perspectiva do que pode acontecer. Portanto,
aí vai uma recomendação básica: tenha pilhas novas de lanterna à
mão ou, pelo menos, um bom estoque de velas.
Para os consultores internacionais
que se dedicam a monitorar a situação internacional do problema,
nosso País não está tão mal quanto a maioria. O Gartner Group fez
uma extensa pesquisa em 87 países, dividindo os principais em quatro
grupos de risco crescente. O Brasil está no segundo, ao lado da
França e na frente de países como Alemanha, Argentina e Japão, que
estão no terceiro grupo. Isso não significa que a eficiência brasileira
seja melhor que a destes países.
Idade média
A explicação é que o Brasil ainda não depende tanto da tecnologia
da informação quanto os mais desenvolvidos. Vastas regiões do interior
ainda vivem na Idade Média em termos tecnológicos. Além da dificuldade
governamental, os brasileiros teriam hoje, segundo o Gartner, 33%
de suas empresas com grande risco de serem atingidas pelo bug. A
avaliação de outra empresa, a Microsoft, é a de que entre as pequenas
e médias 65% estariam com seus consertos em atraso. O que não significa
que não poderão resolver o problema a tempo. "A verdade é que
depois de cinco planos econômicos em curto espaço de tempo, nós
adquirimos uma capacidade incomum de lidar com este tipo de problema",
explica Cassio Dreyfuss, diretor de pesquisa do Gartner no Brasil.
Ele conta que foi esse o argumento que usou nos EUA para convencer
seus colegas de que o Brasil deveria ficar no segundo grupo de risco
e não no terceiro como inicialmente queriam. "Mas pode ter
certeza que o resultado desse jeitinho brasileiro, de
deixar para amanhã o que deveria ter sido feito ontem, será uma
queda brutal na qualidade dos serviços públicos em 2000".
|